• Uma verdade manipulada. Como a Theranos nos fala das mentiras disfarçadas de verdades absolutas do mercado atual?

    Elizabeth Holmes. Ex-CEO da Theranos, atualmente acusada pelo governo americano de Fraude Massiva. (FOTO: MARTIN E. KLIMEK)

    Há um ano mais ou menos eu comecei a ler Bad Blood do Jornalista Americano John Carreyrou. Li a versão em Inglês, mas vi agora que já tem tradução para Português, recomendo fortemente a leitura, é um ótimo livro.


    O livro conta a história da CEO da Theranos, Elizabeth Holmes e da Startup que foi de unicórnio bilionário a um enorme caso de fraude ao longo de 10 anos.

    É uma história de mentiras e manipulação que arrastou muita gente pra lama e arrecadou milhões em investimentos, tudo baseado numa história muito bem manipulada.

    Eu não quero aqui, acusar ninguém de nada, quero apenas compartilhar um pouco do que aprendi com essa história e como tudo isso reforçou um valor que tenho para minha vida que é, não falar do que não sei ou não tenho propriedade e não enganar as pessoas para parecer mais legal do que realmente sou.

    Eu vi as mídias sociais nascerem. Eu tive Orkut (tem gente mais nova que sequer sabe o que é), tive Facebook na época em que era somente em inglês e precisava de convite para entrar, tive blog na época em que não era "cool" e nem melhorava status de currículo.

    Vi como a vida das pessoas mudou e foi influenciada com a alta exposição diária. Do apenas postar o que está comendo e o check-in nos lugares legais que frequenta, para ver mídia social virar um negócio extremamente lucrativo.

    Eu uso redes sociais. Tenho Facebook, tenho Twitter, LinkedIn, Instagram. Mas uso muito moderadamente. Recentemente coloquei esse blog no ar, mas com intuito de compartilhar conteúdo profissional e disseminar assuntos relacionados à tecnologia e gestão em geral, não como uma vitrine da minha vida pessoal (não que seja ruim ou errado, cada um sabe dos seus objetivos).

    E mais uma vez, não tenho vocação pra síndica de mídia social de ninguém e isso não é uma crítica para nenhuma estratégia, é apenas uma constatação pessoal, quero mostrar como isso funciona para mim.

    E o que tudo isso tem a ver com a CEO que descrevi acima?

    Para mim, tem tudo a ver. 

    Desde bem cedo eu luto para conquistar meu lugar ao sol. Tanto na vida pessoal como na vida profissional, ao longo do caminho tive alguns graves problemas que não são o foco desse artigo no momento, mas algo sempre foi uma premissa para mim, não mentir, não maquiar minhas capacidades e não prometer o que não posso entregar.

    A história da Theranos envolve a megalomania de Elizabeth, a falta de empatia pelos funcionários da empresa e uma grande mentira maquiada para parecer verdade. 

    Se sustentou por 10 longos anos, mas como toda mentira, uma hora foi descoberta. E quanto mais alto o pedestal, maior e mais barulhenta é a queda. Para você ter uma ideia, Elizabeth e o seu sócio na Theranos, estão respondendo a um processo que pode render 20 anos na cadeia.

    É para onde a mentira dela a levou.

    Para ambientar melhor minha reflexão, vou falar um pouco sobre a Theranos e sobre Elizabeth Holmes. Escrever esse artigo, veio depois de algum tempo de pesquisa, primeiro porque a história dela e da startup que ela fundou são tão surreais e tão dignas de roteiro de série de investigação policial que não tem como não se envolver.

    Elizabeth Holmes é um gênio. Eu não tenho a menor dúvida disso, apesar da sua bússola moral apontar para o lado errado, ela é brilhante. Ao ler Bad Blood, desde o início é possível ver que ela tem uma inteligência acima da média. Ela é filha de uma família com histórico de empreendedores de sucesso, portanto o empreendedorismo está no sangue dela e a ideia que teve é realmente incrível, porém a forma como resolveu desenvolver o produto é que a derrubou.

    Holmes abandonou a faculdade aos 19 anos. Ela cursou exatos 2 anos e largou para abrir sua Startup. O produto inicial da Theranos (que se chamava Real-Time-Cures na sua fundação) era um adesivo que coletaria amostras minúsculas de sangue do paciente, faria uma espécie de análise e usando tecnologia de sensores, nuvem e comunicação sem fio (princípios básicos de IoT), entregaria os diagnósticos de forma rápida, indolor e barata. Ela mesmo conseguiu patentear essa ideia inicial.

    Ela recebeu apoio de professores e amigos nesse início. Logo porém, todos perceberam que a ideia do adesivo era bonita na teoria mas inviável na prática. A essa altura ela já tinha levantado milhões em investimento. O livro cita que ela era extremamente persuasiva e que isso foi fundamental para angariar tantos fundos mesmo sem nunca ter apresentado uma versão real do que prometia.

    O adesivo se tornou então um aparelho chamado Theranos 1.0. A essa altura ela já tinha mudado o nome da empresa, Theranos vem da junção de duas palavras, Therapy e Diagnosis. Até o nome era incrível!

    A Theranos prometia realizar centenas de exames de sangue com mini cápsulas de 1.29cm com apenas uma gota de sangue.

    Ela chegou a levar o Theranos 1.0 para várias demonstrações em laboratórios e possíveis investidores. Ela conseguiu impressionar a todos eles. 

    O problema? O aparelho nunca cumpriu o que prometia. Tinha inúmeros problemas de engenharia que se provaram impossíveis de resolver ao longo do tempo. Ela chegou a demitir equipes inteiras de engenheiros porque eles nunca conseguiram trazer para o mundo real a ideia que ela tinha para o tal aparelho revolucionário.

    Algum tempo depois, uma nova versão do leitor de exames foi criada, o Edison. O nome é referência ao inventor americano Thomas Edison. Sim, ela era assim mesmo, egocêntrica, tinha plena noção da sua própria inteligência e negligenciou a ética durante todo o curso da sua empresa.

    Uma das versões dos aparelhos da Theranos. Houve várias. Esse é nomeado como Edison 1.0 nas pesquisas que fiz na web.
    O novo foi desenvolvido tendo como base o hardware de uma máquina industrial de cola. Pasmem! Uma máquina extremamente rudimentar.

    O terceiro protótipo falhou exatamente como os dois primeiros. O foco aqui não é discutir a possibilidade de realizar centenas de testes sanguíneos com apenas uma gota de sangue do dedo do paciente (é assustador, não sei como não assustou todo mundo e não fez o pessoal querer entender mais dessa tecnologia desde o início). O que quero discutir é como uma farsa tão grande pôde se estender por tanto tempo e as consequências disso depois que se descobre a verdade.

    Durante os 10 anos de existência da Theranos, Elizabeth saiu de uma ilustre desconhecida para ser a mais jovem bilionária da história, ela foi considerada Steve Jobs de saia para muita gente. Ela foi colocada num pedestal pela imprensa.


    Fácil deixar subir pra cabeça né?


    Ela sabia que o seu produto não funcionava, mas mesmo assim ela continuou angariando fundos com o intuito de ganhar tempo e desenvolver melhor a tecnologia, eu acredito que ela não era uma fraude desde o início, ela se tornou uma fraude quando ficou famosa, em um determinado momento da Theranos, a Startup chegou a ser avaliada em 9 bilhões de dólares.

    Holmes virou capa de revistas, virou celebridade na TV, discursou no TED, foi eleita como uma das mulheres mais ricas e poderosas do mundo pela Forbes e por aí vai. Ela se tornou famosa.

    Esse é o discurso dela no TEDMED, a plataforma TED tirou do ar depois que todo mundo descobriu que ela era uma fraude, mas em alguns lugares o pessoal ainda compartilha.

    Num determinado momento do livro, sua personalidade como gestora é mostrada e eu pensei comigo mesmo, a forma fria e louca que ela tratou seus funcionários foi o início da ruína do seu negócio.

    Sim, o protótipo milagroso nunca funcionou, mas ela perdeu tempo para desenvolvê-lo e torná-lo real quando transformou seus funcionários em inimigos. Para mim, estava claro que alguém iria denunciá-la, e foi o que aconteceu. Quando um ex-funcionário disse à imprensa que a máquina de Holmes nunca funcionou, ela começou a ser bombardeada de todos os lados, inclusive por órgão reguladores e aí diante do escrutínio, ela caiu, inevitavelmente.

    Depois de tentar se defender, de não conseguir, de perder todas as parcerias que conseguiu ao logo dos anos, de ser obrigada a fechar seus laboratórios e revelar que seu hardware nunca funcionou e de ficar provado que pacientes receberam resultados errados de exames para câncer por exemplo, ela foi de bilionária poderosa para falida acusada de fraude massiva.

    Ela pode ser condenada, junto com o ex-parceiro de negócios há 20 anos de cadeia.

    O que podemos aprender com essa história digna de filme?

    - O poder sobe para a cabeça das pessoas e elas começam a se sentir acima de todos, começam a ignorar que um dia a farsa poderá ser descoberta, o poder te deixa corajoso e muitas vezes cego para as consequências também.

    - Elizabeth era uma chefe tóxica. O livro deixa isso claro. Ela controlava insanamente o horário de entrada dos funcionários, chegou a sugerir que um departamento de engenharia funcionasse 24/7 com os mesmos engenheiros, ignorando totalmente que as pessoas precisam ter uma vida fora do trabalho e precisam de descanso por uma questão de saúde mental e física. Ela obrigava os funcionários a jantar na empresa e o jantar nunca era servido antes das 20 horas.

    - Ela não aceitava opiniões. Ela blindava as informações e os próprios departamentos eram proibidos de se comunicarem, ela era tão obcecada com a segurança da informação que chegava a prejudicar a produtividade do próprio negócio.

    - Ela se achava igual a Steve Jobs. Se você pesquisar algumas imagens dela na web, vai ver que ela se vestia igual a ele. Sempre de camisa preta com gola alta e calça social preta. O livro chega a dizer que o tom grave da sua voz, era forçado, para chamar mais a atenção quando falava. E funcionou.


    - E o principal, ela levou muito a sério a história de divulgar algo antes de estar pronto, ou MVP (Produto minimamente viável) e vendeu algo que era só teoria, que nunca tinha saído do papel em um protótipo realmente funcional.

    E esses são apenas alguns pontos, eu poderia falar muito mais sobre isso.

    Algumas perguntas me atormentam em toda essa história, mas ao mesmo tempo me remetem aos tempos atuais, onde tanta gente acredita em tanta coisa sem prova concreta, onde falar bem e convencer pessoas está acima de experiência real.

    - Como ela foi capaz de angariar tanto investimento? Ninguém desconfiou da ideia "disruptiva demais"?

    - Como durante 10 anos ninguém pediu pra ver o tal aparelho funcionando na prática e na sua frente?

    - Como ninguém testou ou exigiu ver resultados de testes reais?

    - Como ninguém teve medo de resultados não confiáveis que envolvem a vida de pessoas? A Theranos chegou a ser conveniada com uma rede famosa de farmácias americana e chegou a realizar testes em doentes terminais de câncer para um grande laboratório farmacêutico. Como ninguém questionou nada?

    O livro diz em alguns pontos que seus "enormes olhos azuis" e o fato de o mundo ansiar por uma grande mulher empreendedora no nível de Jobs, fizeram com que muita gente ficasse cega e investisse em algo que nunca funcionou sem sequer desconfiar.

    O que tudo isso fala do mercado atual?

    Muita coisa. Como eu disse no começo, não escrevi tudo isso para acusar ninguém, mas para mostrar que a gente PRECISA ser verdadeiro em todos os momentos da nossa carreira e da nossa vida. Uma história bonita pode ser criada, mas se ela não for verdade, será descoberta e pode ser que o fracasso te assombre pelo resto da sua vida.

    Reflita, estou oferecendo algo que realmente sei fazer, ou estou enganando as pessoas e criando uma cortina de fumaça ao redor das minhas incapacidades? Ninguém é perfeito pessoal, todo mundo precisa de aperfeiçoamento diário.

    E gente, não é entrar de cabeça numa síndrome do impostor não, é ter ética e consciência do ditado que eu tenho certeza que você já ouviu de alguém mais velho:

    MENTIRA TEM PERNA CURTA.

    Foi um texto longo, mas eu queria mostrar como a teia de mentiras ao redor de Elizabeth Holmes e Theranos pode nos mostrar que ser um impostor não vale a pena nossa paz.

    Quer saber mais? A ABC transformou a história dela em série, não está disponível para o Brasil ainda, mas vocês podem ver o trailer, tem inclusive uma parte do depoimento dela, nele você pode ver como ela está com cara de atormentada. Ela saiu de mulher incrível estampando capas de várias revistas, para sinônimo de fraude. Eu não queria estar nos sapatos dela.


    Se você leu até aqui, meu muito obrigada. Espero que eu tenha te inspirado um pouco, levado a você um pouco de conhecimento. Te espero na próxima.
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